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Autor:

Dom Sergio Arthur Braschi

  Bispo Diocesano

14 / 02 / 2018

Quaresma: fraternidade para superar a violência


Crédito: | Divulgação

     Antes de tudo, lembremos que a Quaresma é um tempo oportuno, um tempo litúrgico de especiais graças de conversão, isto é, de mudança de vida. Cultivar o seguimento de Jesus, aprender com ele a fazer sempre e sempre a vontade do Pai, no serviço aos irmãos: “eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida por muitos...” Assim nos preparamos devidamente para a Páscoa!

     Há três exercícios que a mãe Igreja nos oferece “neste tempo de conversão, neste dia da salvação”: jejum, esmola e oração. O jejum é esvaziamento, abre nossa pessoa para os outros, para a receptividade e a liberdade da vida em Cristo. A esmola é exercício de partilha, vida e fé partilhadas. Nasce da alegria de ter encontrado o tesouro escondido, a pérola preciosa, e assim – fazendo a experiência da misericórdia recebida – sente necessidade de partilhar com o outro, vivência de fraternidade. Finalmente, a oração. A Quaresma nos convoca a reservar mais tempo para a oração, para o encontro com Deus imitando Jesus no deserto: reservar tempo para um pouco de silêncio interior diante de Deus, nosso Pai... Uma espécie de “tomar sol” diante de Deus, uma exposição ao dom recebido do seu cuidado amoroso e misericordioso, num esforço de ser atingidos – com mais intensidade – pela graça da Quaresma.

     E aqui no Brasil, há muitos anos, este tempo de conversão tem um foco especial através da Campanha da Fraternidade. Não é apenas um caminho individualista, mas sim um caminho de conversão nas três dimensões: um caminho pessoal, um caminho comunitário, um caminho de toda a sociedade brasileira, num empenho de tornar visível a salvação que vem de Deus, concretamente.

     E este “concretamente” se expressa, neste 2018, pelo tema: “Fraternidade e superação da violência”. A Campanha tem, como objetivo geral, construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. E a meta positiva da Campanha se expressa na convicção do lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

     Já no começo deste ano ficamos estarrecidos com os noticiários sobre a violência, seja em nosso país, seja em nível mundial. São tiroteios diários, com mortes por balas perdidas e por assassinatos encomendados. Em outros países são episódios de terrorismo, explosão de carros-bomba, ou regiões objeto de bombardeios sistemáticos, com morte de tantos civis, sobretudo idosos e crianças...

     Mas os dados do Texto-base da CF 2018 nos fazem saber que o Brasil vive uma verdadeira guerra: apesar de ter menos de 3% da população mundial, nosso país reponde por quase 13% dos assassinatos do planeta. Em 2014 chegamos ao topo desse triste ranking, com 59.627 mortes violentas num ano. E mais da metade dessas mortes por arma de fogo (58%) são de jovens...

     Os números apontados pelo Mapa da Violência 2016 mostram que são mortas por arma de fogo no Brasil cinco pessoas a cada hora, cerca de 120 pessoas por dia. Ocorrem mais mortes por arma de fogo no Brasil do que nas chacinas e atentados que acontecem em todo o mundo. Mais homicídios do que em diversas guerras recentes. Daí ser a violência – sobretudo nas grandes cidades, mas também nas pequenas – a principal preocupação dos cidadãos. E, a partir da década de 1990, aumentou muito o que se gasta em segurança nas residências, etc. Mas hás outras formas mais sutis de violência, quando a cordialidade nas relações sociais cotidianas cede lugar à intolerância, ao preconceito ou ódio de classe, de raça, de gênero, de escolha política e até de intolerância religiosa.

     Ao lado dessa violência direta, forma mais extrema de agressão onde aparece claro quem agride e quem sofre um dano, há a violência institucional: trata-se de um processo que acaba gerando dano a um segmento social, modelos de organização da sociedade que tendem a perpetuar – por exemplo – a desigualdade social e mecanismos de exclusão (escolaridade baixa ou insuficiente, incapacidade de alimentação adequada ou acesso a atendimento de saúde e medicamentos, etc.).

     Temos, enfim, uma verdadeira violência cultural, ou uma cultura da violência: acaba-se criando uma situação em que a sociedade já não reconhece como violência certos atos ou situações em que pessoas são agredidas. Elaboram-se discursos para apresentar razões e justificativas como se uma ação violenta fosse consequência de determinadas condutas da própria pessoa que sofreu a violência. Sobretudo na mídia policial o quadro da violência é associado à atividade criminosa, tráfico de drogas e corrupção. Contudo, muitos assassinatos são cometidos por impulso ou por motivos fúteis: ciúmes, desavenças entre vizinhos, desentendimentos no trânsito e outras formas de conflito que apresentam a reação violenta na forma passional como “normal”, gerando nossa indiferença.

     “Um argumento semelhante se presta a dizer que jovens, negros e mulheres sofrem violência quando e porque fazem algo indevido. A estuprada, por vestir-se de forma “imoral” ou por não se dar o respeito. O adolescente, por ser drogado, delinqüente ou marginal. Dessa forma, entende-se que uma certa dose de violência será, inclusive, benéfica para manter as “pessoas de bem” longe do crime e dar o “devido castigo” a quem deixou de fazer “aquilo que é certo”. [...] A violência cultural pode ser mais esquiva. Esconde-se em meio a crenças legítimas, a formas de pensamento e de linguagem. Por exemplo, na forma como se constroem as relações sociais no Brasil, entende-se comumente que a desigualdade é algo natural. Sob esse ponta de vista, tende-se a tratar, sob argumentos diversos, alguns sujeitos sociais como se fossem naturalmente inferiores: mulheres, jovens, idosos, trabalhadores, negros, índios, pessoas com diferentes orientações sexuais, imigrantes, migrantes. Não parece casual que essas identidades sejam alvos freqüentes de atos violentos” (Texto-base da CF 2018, nn. 48 e 51).

     Queridos diocesanos. Vivamos esse tempo da Quaresma num aprofundamento de nossa conversão. Estamos no Ano nacional do Laicato: busquemos redescobrir a vocação batismal e crismal, que nos exige transformar essa sociedade violenta como verdadeiro “sal da terra e luz do mundo”. Só assim seremos verdadeiramente irmãos! (Mt 23,8).




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