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Aspecto da História Religiosa do Paraná

 (Discurso proferido por Dom Pedro Fedalto, Arcebispo de Curitiba,
na Sessão Solene do Cinqüentenário da Diocese de Ponta Grossa).

 É uma honra, mas muito mais que honra, é uma responsabilidade falar, nesta sessão solene do Cinqüentenário da Diocese de Ponta Grossa. Confesso-me reconhecido a Sua Excelência D.  Geraldo Pellanda e aos distintos membros das Comemorações do Jubileu de Ponta Grossa pela lembrança de meu nome. Aqui estou, com humildade e simplicidade, e ao mesmo tempo, com um gesto de amizade, para contar alguma cousa que me foi pedida, nesta noite. Não falarei da Diocese de Ponta Grossa, sob o aspecto teológico-pastoral, jurídico, social, étnico, político, educacional: limitar-me-ei descrever, em ligeiras palavras, a evolução histórico-religiosa da Igreja do Paraná até chegar a Ponta Grossa.

 Para que se tenha uma visão global da Diocese, peço permissão para apresentar um aspecto histórico-religioso do Paraná. O Estado do Paraná, que não era Estado, estava dividido em duas partes: uma pertencente a São Paulo, até 1853, quando conseguiu sua auto-determinação governamental e uma segunda, pertencente à colônia espanhola do Paraguai. A evangelização, por conseguinte, foi feita em duas regiões distintas e também por missionários diferentes. A religião existente no Paraná, nas diversas tribos dos índios Guarani, Coroados, Carijós e Botucudos era rudimentar. Admitiam a existência de uma divindade, mas ignoravam os verdadeiros princípios de uma religião.

 Tupã era o seu deus, que era o sopro do divino. Adoravam porém, ao mesmo tempo, o relâmpago, o trovão, o sol, a lua. Acreditavam também num deus malfazejo, a quem chamavam Anhangá. Aceitavam a crença de uma vida imortal, onde havia abundante caça, sem necessidade de perseguir as antas gordas, porque elas vinham oferecer-se aos caçadores. Alguns deles, sobretudo os Caciques, pretendiam ter comunicações com o deus Tupã e predizer os tempos bons e maus para as caçadas. Poderíamos dizer o horóscopo de nossos dias. A moral era diversificada entre os índios. Os Coroados admitiam a poligamia e era difícil convencê-los do matrimônio monogâmico.

 Era este o ambiente que encontraram os primeiros missionários jesuítas vindos de São Vicente, no Estado de São Paulo. Narram as crônicas que o Jesuíta Padre Leonardo Nunes, em 1550, veio de São Vicente a pé até Paranaguá, de passagem para a ilha dos Patos, Desterro depois para chamar-se Florianópolis de hoje. Pela agilidade com que o Padre Leonardo se locomovia de um lado para o outro para desempenhar a sua missão divina, os tupis o chamavam "Abaré-bêbe", isto é, Padre que voa. (A Igreja na História de São Paulo, Monsenhor Paulo Florêncio da Silveira Camargo, 1.° vol. pág. 28). É bom saber-se que, neste tempo, em Paranaguá, só havia homens nativos, pois somente mais tarde é que chegaram os civilizados brancos. Por toda parte, imperava o homem nômade, com sua rudeza e liberdade, a fera sanguinária perseguida e cruel, as aves com seu esvoaçar livre, com sua plumagem multicolor e com seu canto mavioso.

 Aos missionários volantes sucederam-se os jesuítas residentes em Paranaguá, que subiram a Serra do Mar e vieram até Curitiba e Ponta Grossa. A eles uniram-se sacerdotes seculares, franciscanos e carmelitas. Ao mesmo tempo, em que os primeiros missionários aportavam a Paranaguá e traziam a mensagem de salvação ao homem nativo, formou-se outro pólo irradiador do Evangelho; no Oeste e Norte Paranaense, então Colônia Espanhola. Por ordem do Padre Cristóvão de Gouveia, visitador da Companhia de Jesus, para missionar o Paraguai, chegavam em 1588, ao antigo Guaíra ou Guairá, os Padres Tomás Filds (irlandês) e Padre Manuel Ortega (português). O primeiro se ocupou mais dos espanhóis e o Pe. Ortega com os índios, aprendendo a língua dos Ibirajaras, nação numerosa e valente.

Antes, porém, houve um ofício, a 11 de março de 1589, dirigido por oficiais reais de Assunção a Sua Majestade o Rei da Espanha, Felipe II, nestes termos: "Nestas províncias, há muita falta de sacerdotes e de religiosos. Nos povos de Guairá que está a 6 léguas de Assunção, há apenas um clérigo cansado. Damos a V. Majestade para que, como cristianíssimo Rei e Senhor nosso, mande prover o que mais convém ao serviço" de Deus e desencargo de Sua Real consciência". (História documentada de Ios Mártires deI Caaró e Yjuhy, J.M. Blanco, S.J., Buenos Aires, 1929, pág. 31 e 32) e Os Três Mártires Rio Grandenses, Pe. Luiz Gonzaga Jaeger, S.J., pág. 23).

 Isto vem confirmar o que escrevia, em 1582, João Garay, Governador de Santa Sé: "Aqui, em Santa Sé, há um só franciscano de 80 anos, Frei Francisco de Aroca, na Ciudad Real, que por uma se Guaíra e, por outro povo, que está há mais de 40 léguas mais para o lado do Brasil, não há nenhum sacerdote, porque os dois que havia aí colocado o Bispo Frei Pedro de Ia Torre, eram muito velhos e um, há mais de três anos morreu e outro há mais de um ano" (obra citada supra, pág. 32, 33 e os Três Mártires Rio-Grandenses, pág.24). O Bispo de Tucunam, Frei Fernando de Trejo y Sanábia, franciscano, filho de Fernando e Sanábia, nascido, em São Francisco, costa brasileira, entre Cananea e a ilha de Santa Catarina, recorreu aos Jesuítas e conseguiu missionários dos provinciais do Brasil e do Peru. Vieram seis Missionários, desconhecedores da língua falada, mas profundos entendedores da linguagem da fé, do amor, do sacrifício, da doação plena. Em pouco tempo, estavam fundadas treze reduções, aldeando 200.000 índios. Tiveram que ser primeiro alunos para depois poderem ser os mestres.

 Foi junto à Igreja de Nossa Senhora de Loreto, no Pirapó, que se concentrou a grande população indígena com o fim de se estabelecer uma civilização cristã. Quando a população de Loreto cresceu, com a conquista espiritual de novos catecúmenos, fundaram os Jesuítas novas sedes de reduções: Santo Inácio Guassu, Santo Inácio Mini, ambas à margem esquerda do rio Paranapanema; Jesus Maria e Santo Antônio à direita do rio Ivaí; São José, São Francisco, Encarnação e São Miguel à esquerda do Tibagi. São Tomé à esquerda e Los Angeles à direita do Rio Faxinal, afluente do Ivaí. Conception, Santa Maria, São Pedro e São Paulo à direita do Iguaçu; Ontiveros, Vila Rica do Espírito Santo e Ciudad Real del Guaira à direita do Piquiri.

 Em cada redução, os missionários levantavam uma igreja. Os Jesuítas não ensinavam apenas religião, mas também o cultivo da terra, da pecuária, da ciência e da arte. É sabido que coube ao Paraná a glória de ser o berço da primeira arte tipográfica do Brasil. Na redução de Santa Maria Mayor, acima dos Saltos do Iguaçu, o Pe. Antônio Montoya, peruano, deu ao prelo a primeira obra impressa no Brasil, o "Glossário de Ia lengua Guarany", segundo Ermelino de Leão ou "Arte y Vocabulário de Ia lengua Guarany", segundo Romário Martins. Na redução de Loreto, havia a primeira tipografia que imprimiu o primeiro livro em Guaraní, a tradução de "O Temporal e o Eterno Padre Nieremberg". (História y bibliografia de la imprensa nel antigo vice-reinado deI Rio de la Plata, 1892,Pe. Madureira, pág. 404).

 Esta prosperidade no espiritual, no educacional, no material durou pouco, porque, em 1626, vieram os bandeirantes comandados por Raposo Tavares e destruíram tudo. Em 1631, já não existia mais nada. Tanto é verdade que estes mesmos lugares ficaram estacionários até cinqüenta anos atrás. Onde havia 200.000 índios não foram encontrados senão cinco mil, ao se constituir a Prelazia de Foz do Iguaçu em 1926.

 Mas continuemos o nosso filme. Voltemos ao litoral paranaense. Paranaguá é o grande centro de evangelização. Os jesuítas fundaram o colégio, abriram seminário. Já a 14 de maio de 1708, junto à igreja de Nossa Senhora das Mercês, deparamos com a primeira escola dos jesuítas para dar lugar ao célebre colégio exigido pela população que se obrigava mandar estudar seus filhos em Santos, São Paulo e Rio, de difícil alcance naquela época. Assim a 19 de março de 1755, é inaugurado o Colégio: funcionava anexo um seminário para a formação de sacerdotes, tendo ingressado alguns filhos da terra, segundo assevera Serafim Leite (Memória sobre o Ensino e Educação no Paraná. Cinqüentenário da Estrada de Ferro Paraná-Santa Catarina, pág. 94-95) .

 Foram, desta maneira, os Jesuítas que inauguraram o ensino público, primário e secundário no Paraná. Para manter este colégio, foram doadas aos Jesuítas fazendas em Morretes, Curitiba, Tibagi e Pitangui (Ponta Grossa). Aqui também durou pouco tempo o trabalho promissor dos Jesuítas, porque a 15 de fevereiro de 1760, tiveram que abandonar Paranaguá, expulsos pelo Marquês de Pombal. A evangelização do Paraná continuou por Missionários Franciscanos, Carmelitas e Padres Seculares. Tamandaré e Castro recebem Carmelitas a partir de 1709. Os franciscanos se estabeleceram em Paranaguá e Curitiba desde 1746. Mas a lei da altemativa, que começou a vigorar em 1719, determinava que nos conventos houvesse igual número de religiosos brasileiros e portugueses. Isto porque se alimentava nos brasileiros o ideal de independência. A esta lei acrescenta-se outra: a da suspensão dos noviciados em 1764, completada em 1855, com a proibição das Ordens Religiosas receberem novos noviços e clérigos.

 Um dado comparativo poderá dizer-nos a triste situação em 1889, ano da Proclamação da República. Em 1759, havia no Brasil 950 franciscanos, 320 jesuítas, 850 religiosos diversos e 580 seculares e 8 dioceses. Para uma população de 2.700.000 habitantes havia 2.700 padres. Em 1889, para uma população de 14.500.000 habitantes, havia apenas 700 padres, sendo 520 seculares, 170 religiosos diversos e 10 franciscanos, com apenas 12 dioceses.

 Este fato refletia-se também no Paraná. Havia o desejo de Curitiba ou Paranaguá ser diocese no tempo do Império. O Paraná dependia até 1745 da Diocese do Rio de Janeiro e depois da de São Paulo. Os poucos sacerdotes viviam longe de seus pastores. As dificuldades de comunicação, precária e difícil, impediam um contato dos Pastores com seus Sacerdotes. Até 1745, só havia 4 paróquias no Paraná, a saber: Paranaguá, Curitiba, Antonina e São José dos Pinhais.

 Em 1853, a 19 de dezembro, o Paraná emancipou-se de São Paulo, pois dependia dele , como 5ª Comarca. O Presidente da República do Paraná, Zacarias de Góis e Vasconcelos em seu relatório, a 11 de março de 1856, diz: "Culto público: é geralmente mau o estado em que se encontram as diversas matrizes da Província. Umas por velhas e outras por mal construídas ou inacabadas. Um inconveniente ainda maior é a falta de sacerdotes que administrem os sacramentos nas diversas paróquias da Província".

Não há cousa que mais aflija o coração do que ver o estado de abandono em que parecem viver estas populações remotas, sem haver quem administre o pasto espiritual. Donde se segue que muitas crianças se encontram sem terem recebido o batismo e morrem os fiéis sem que, à sua hora extrema, ouçam da boca de um ministro da religião estas palavras de amor que os consolem e os fortifiquem, no momento em que se separam para sempre dos objetos que o ligam à terra de provação em que Deus os colocou. A Presidência não tem cessado de pedir remédio a este estado de desmantelamento que dificulta os exercícios da religião tão necessários para moralizar o povo e adoçar os costumes”. (História da Assembléia Legislativa do  Paraná, sep. III, 9,10. Apud a Igreja na História de São Paulo, 7º vol., pág. 226 e 227, Mons. Paulo Florêncio da Silveira Camargo).

 Na fala da Assembléia Legislativa Provincial do Paraná em 15 de fevereiro de 1886, o Presidente André Augusto de Pádua Flery queixava-se de que há 16 paróquias providas e 4 vagas. No relatório apresentado à Assembléia Legislativa do Paraná, em 16 de fevereiro de 1881, o Presidente da Província, Dr. José Pedrosa, lamenta o triste estado da religião do Paraná: "Muito descurado, senhores, vai o culto público. Uns atribuem o mal, faltas as devidas e raras exceções, ao pouco zelo dos párocos pelo interesse da Igreja; outros o explicam com o indiferentismo do povo pela causa da religião. Sou levado a crer, pelo que vejo e sei, que a primeira causa tem bastante contribuído para gerar a segunda e que ambas dão-nos o triste resultado que presenciamos". Já no relatório de 7 de janeiro de 1882, o Vice-Presidente da Assembléia Legislativa, José Antônio Vaz de Carvalhaes, asseverava o seguinte: "Abstenho-me de enunciar todas as reflexões que sobre semelhante assunto me acodem ao espírito e que, sem remediar as causas, iriam desgostar pessoas que, pelo estado, cumpre sempre respeitar. Dir-vos-ei unicamente que o estado religioso da Província não é satisfatório e que, ao ver-se o abandono em que por aí anda o culto, quase que se acredita nos célebres cálculos dum matemático escocês que, para época não distante, marcou o desaparecimento da religião de Cristo, a menos que se repita a Encarnação do Verbo Divino".

 Quem dirige e governa a Igreja é o Espírito Santo. É Ele que a vivifica. Com o advento da República surge nova luz para a Igreja do Brasil. Três anos depois é criado o Bispado de Curitiba, que abrange os Estados do Paraná e Santa Catarina, precisamente a 27 de abril de 1892. No Paraná havia uma população de 380.000 habitantes, 39 paróquias, das quais 11 sem provimento de sacerdotes. Havia para esta população apenas 47 sacerdotes, sendo 15 italianos, 15 poloneses, 7 brasileiros, 5 franceses, 3 alemães e 2 portugueses. Em todo o Estado do Paraná, só havia um religioso capuchinho, falecido em 1895 e nenhuma religiosa. Era o Frei Timóteo de Castelnuovo, o grande missionário.

 A 27 de setembro de 1894, com a maior alegria, entusiasmo e emoção, o povo do Paraná recebeu o primeiro bispo de Curitiba, Dom José de Camargo Barros. O Paraná esqueceu as tristezas e o luto da Revolução Federalista para unir-se na recepção grandiosa ao primeiro bispo. Por 40 bandeiras estavam representadas 40 nações que formavam as etnias do Paraná. Dom José foi o bispo providencial para o Paraná e Santa Catarina. Pôs mão a obra. Visitou toda sua extensa diocese, percorrendo, em tempos difíceis, todo o território, perfazendo o total de 586 dias, crismando 118.637 pessoas e legalizando 2.026 casamentos. Fundou o seminário diocesano, confiando-o aos Lazaristas Franceses. Dizia ele a 3 de novembro de 1894, em sua carta circular: “Para a vitalidade de uma diocese, o elemento essencial é um bom seminário. O seminário, como a palavra indica, é a sementeira, é a fonte fecunda, donde se irrompe e irradia a vida religiosa, por todas as camadas sociais pela formação de sacerdotes exemplares e preparados para as lutas incruentas no meio do século. O seminário é um monumento de luz e glória para todo um povo".

 A 19 de março de 1896, começou a funcionar o seminário de São José de Curitiba.  Mas até que se formassem novos padres, o caminho era longo. Por isto chamou logo Padres Missionários de São Vicente de Paulo (os Lazaristas) e padres basilianos  Ucraínos, para conservarem a fé nos imigrantes italianos, alemães, poloneses e ucranianos e também para acudirem os fiéis brasileiros, sem pastores. Depois de nove anos de fecundo apostolado, vem a Curitiba, Dom Duarte Leopoldo e Silva, eminente  prelado que, apenas em dois anos, visitou 131 locais e percorreu 4.960 Kms. E crismou 51.594 pessoas e regularizou 762 casamentos.

 Foi seu sucessor o bispo diplomata de Petrópolis, Dom Francisco Braga, nomeado bispo com apenas dois anos de sacerdócio. Logo, no inicio de seu governo, foi desmembrado o território de Santa Catarina, elevado a Bispado em 19 de março de 1908. O clima religioso do Paraná não era fácil. Era Curitiba um centro de anti-clericalismo. Os Bispos foram com fé, coragem e tenacidade, mostrando aos ateus que a Igreja de Deus era bem diferente do que pensavam. Assim o Evangelho foi se implantando no Paraná e crescendo. Já não era possível que um bispo percorresse todo o Estado e estivesse presente em toda parte. Foi então que se pensou na divisão do Paraná em novas Dioceses.

 Crescia a região de Ponta Grossa, Palmas e Guarapuava. Desenvolvia-se o norte do Paraná. Para se ter uma idéia do crescimento de Ponta Grossa, basta ver o relatório de 20 de setembro de 1898, do Padre João Batista de Oliveira, vigário de Ponta Grossa. Dava apenas uma população de cinco mil pessoas para Ponta Grossa, enquanto cidades adjacentes como Palmeira, Guarapuava, Castro e Tibagi acusavam 20.000 habitantes em cada município. Tão pobre era a matriz de Ponta Grossa que ninguém aceitava ser sacristão pelo diminuto rendimento. As alfaias eram tão reduzidas que não se podia celebrar missa solene com três padres. Não se realizava nenhuma festa.

 Ponta Grossa esteve, desde sua origem histórica, ligada à religião. Os Missionários Jesuítas de Paranaguá subiram a Serra do Mar e chegaram até Ponta Grossa para pregarem a Palavra de Deus. Foi José de Goes de Moraes, filho do Capitão Mór Pedro Taques de Almeida, que doou a Fazenda do Pitangui aos Padres Jesuítas de Paranaguá para manterem seu Colégio aberto, a 19 de março de 1755. Daí a ligação de Ponta Grossa com Paranaguá. Num livro registro, aparece a data de 1757, confirmação do que os autores descrevem, como Alcebíades Casera Plaisand, em seu livro "Scenário Paranaense", 1909, pág. 39. Consta que a primeira igreja de Ponta Grossa foi dedicada à Santa Bárbara. Data de 1729. Foi fundada pelos jesuítas e floresceu até sua expulsão em 1760.

 Ponta Grossa cresceu espiritual e materialmente. Por isso, reclamava a presença de um Pastor em sua sede. No arquivo da Cúria de Curitiba, encontra-se uma carta de Dom João Francisco Fraga, bispo de Curitiba, datada de 24 de março de 1924 ao Núncio Apostólico do Brasil, Dom Henrique Gasparri. Nesta correspondência, Dom João Braga descreve como surgiu a idéia das novas dioceses do Paraná: “Dr. Affonso Camargo, Senador pelo Paraná e ex-Presidente do Estado, chegando do Rio a Curitiba, difundiu a notícia que, de passagem por Ponta Grossa, lhe fora dito pelos políticos na estação que, brevemente, teriam ali a sede de um bispado". Continua a carta: "Piedoso católico, e pode-se dizer entusiasta mesmo, é o atual presidente do Estado (Dr. Caetano Munhoz da Rocha). Ao regressarem de Ponta Grossa, no dia 8 de maio, disse-me no trem o Presidente, que havia recebido do Ministério do Exterior comunicação particular de que viria aqui um Visitador Apostólico e que ele, presidente, se lembrava em Ponta Grossa de auscultar personagens influentes a respeito da criação de um bispado ali e que estes personagens se haviam mostrado dispostos a contribuir. Respondi-lhe que tomando em consideração o bem da religião, seria a criação de novas Dioceses cousas para ser altamente desejadas e tanto que, há tempos, pedira eu a Dom Alberto José Gonçalves, paranaense de nascimento, que, em São Paulo, trocasse idéia com Dom Duarte Leopoldo e Silva, que foi Bispo do Paraná. Dom Alberto, em nome de ambos, respondera dizendo ser melhor esperar um pouco, aconselhando-me a jogar água benta no meu escrúpulo. Não será fácil a divisão geográfica entre Curitiba e Ponta Grossa, visto que ficaria Curitiba abrangendo cidades e lugares mais ou menos estacionários, ao passo que Ponta Grossa ficaria com regiões em melhor desenvolvimento. Seria preciso pensar também em um bispado no Norte do Paraná, onde aliás seria difícil, achar a sede conveniente".

 O Presidente do Estado, Dr. Caetano Munhoz da Rocha, imediatamente, prontificou-se a abrir um crédito de cem contos de réis para o patrimônio de cada Diocese. Como era de se esperar, houve protestos dos inimigos da Igreja Católica, chegando a apelar ao Presidente da República contra o ato do Presidente do Estado e do Congresso, que pretenderam auxiliar com dinheiro do erário público a formação do patrimônio das duas novas Dioceses. O Presidente do Estado, convicto de que estava concorrendo para o bem de seu povo, disse: "quanto mais bradarem, mais serei capaz de ir aumentando o auxilio". De fato a 19 de março de 1925, pela lei nº 2343, o Presidente do Paraná decretava aberto o crédito de cento e sessenta contos para o patrimônio da diocese de Ponta Grossa e de igual quantia para o da Diocese de Jacarezinho. Na mesma carta, pedia-se que as duas dioceses fossem criadas quanto antes e que, na mesma data, fossem nomeados os titulares. “A circunscrição de Jacarezinho é habitada. por gente pacífica e boa e por isso será fácil de ser dirigida. A Circunscrição de Ponta Grossa parece requerer um titular que, de certo modo se imponha e que, sendo genuinamente brasileiro, não estranha haver de tratar com as mais variadas nacionalidades: polonesa, ucraniana, italiana e alemã".

 Finalmente, depois de 2 anos de espera, a 10 de maio de 1926, foram criadas as duas dioceses de Ponta Grossa  e de Jacarezinho e a Prelazia de Foz do Iguaçu. Para a Diocese de Jacarezinho, foi fácil encontrar o titular. Um ano depois, tomava posse Dom Fernando Taddei, culto Lazarista, Reitor do Seminário de Curitiba. Ponta Grossa teve que aguardar quatro anos até que fosse provida.

 O primeiro bispo foi o zeloso, dinâmico Padre Antônio Mazzarotto, vigário cooperador da Catedral de Curitiba, o melhor orador sacro do Estado, pela profundeza de doutrina, o Diretor espiritual dos jovens, o lídimo intelectual que atraía e arrastava após si os homens de saber de Curitiba. Seu púlpito da Catedral de Curitiba era assediado aos domingos, na missa das dez e meia, para se ouvir em suas pregações, preparadas pelo estudo e oração e proferidas com unção e suave eloquência. Seus escritos profundos e doutrinários, formativos e polêmicos, despertavam a atenção de todos os leitores. Este era o jovem sacerdote destinado para reger a Diocese de Ponta Grossa.

 A 16 de dezembro de 1929 foi escolhido e a 23 de fevereiro seguinte, o Cardeal Henrique Gasparri que, como Núncio Apostólico no Brasil, se empenhara na  criação da diocese de Ponta Grossa, sagrava o primeiro Bispo. A 3 de maio de 1930, tomava posse da Diocese. Encontrava 12 paróquias, num imenso território, com uma população rarefeita de 209.000 habitantes, com 38 sacerdotes, sendo 31 religiosos de cinco congregações e cinco congregações femininas. As distâncias eram enormes, as comunicações rudimentares e primitivas.

 Dom Antônio Mazzarotto é o bom pastor. O bom pastor é aquele que busca as ovelhas. Por isso, inicia as longas e cansativas visitas pastorais. De uma feita Sua Excelência demorou-se seis meses fora da sede. É seu lema: Pregar e ensinar ao povo rezar e viver o cristianismo. Nos intervalos das Visitas Pastorais, preparava cada ano uma Carta Pastoral, todas elas ricas de conteúdo doutrinário e de vernaculidade. São elas trinta e seis. Procurou prover a Diocese de mais sacerdotes, fundando o Seminário Diocesano e convidando Congregações Religiosas. Constituiu o patrimônio da Diocese, com as escassas economias, provenientes de Crismas e de outras fontes. Depois de 30 anos de constantes lutas pela implantação do Reino de Deus, o Santo Padre deu-lhe um cirineu na pessoa de Sua Excelência Dom Geraldo Micheletto Pellanda.

 Vossa Excelência, Dom Geraldo, na qualidade de Bispo Coadjutor e depois Diocesano, continuou a fazer crescer o Reino de Deus. Se no Governo de Sua Excelência Dom Antônio Mazzarotto foram criadas 27 paróquias, neste curto período de dez anos, Vossa Excelência, Dom Geraldo já erigiu 17 paróquias, fez vir à Diocese 16 Congregações religiosas, ordenou 12 sacerdotes. Incentivou o apostolado dos leigos, descentralizou a pastoral. Implantou novos movimentos religiosos. Visitou três vezes toda a Diocese e fez visitas canônicas às religiosas. Um quadro comparativo ajuda-nos a visualizar o panorama da Diocese de Ponta Grossa.

1 9 2 6: 209.000 habitantes, em 56.550 Kms2., com 38 sacerdotes e 12 paróquias, sem nenhum seminário.

CINQUENTA ANOS DEPOIS: de seu território foram integralmente desmembradas as dioceses de Palmas, Campo Mourão, Guarapuava, Umuarama e, em breve, grande parte da nova diocese de União da Vitória. São hoje 41 paróquias, 136 sacerdotes, sendo 24 diocesanos e 112 sacerdotes de 16 congregações religiosas, 260 religiosas de 22 congregações e 13 seminários com 765 seminaristas. 

Na festa jubilar da Diocese de Ponta Grossa, só nos resta agradecer ao Senhor Nosso Deus por todas as luzes, graças e forças concedidas a todo o povo de Deus. Ponta Grossa, exulta nesta festa de glória e de triunfo. Ali estão os troféus, colhidos nestes gloriosos cinqüenta anos. Ali está o heroísmo de teu primeiro Bispo Dom Antônio Mazzarotto, o homem de sabedoria, de firmeza, de austeridade e de doação plena a Deus e aos homens. Ali está seu sucessor Dom Geraldo M. Pellanda, dinâmico e vigilante, atento e disponível a todo o trabalho pastoral. Ali estão os sacerdotes que souberam plantar nos corações dos homens a semente de Deus e a fizeram crescer com sua oração e zelo pastoral. Ali estão os religiosos e religiosas que, com seu testemunho e generosidade, deram valiosa colaboração para a difusão do reino de Deus, nas escolas e catequeses ensinando e educando, nos asilos e orfanatos promovendo e formando, confortando e aliviando os sofrimentos nos hospitais. Ali estão as autoridades civis e militares que, aliadas às eclesiásticas, entenderam que trabalhar unidos e de mãos dadas é bem mais fácil. Por isto, procuraram fazer o bem num espírito de integração, caminhando juntos. Ali estão os leigos, estes cristãos que descobriram a sublimidade de sua vocação. Agindo nas duas esferas, intra e extra, isto é, na ação diretamente eclesial e na reforma do mundo temporal, procuram construir o reino de Deus, empenhados na difusão do Evangelho.

 Ponta Grossa, levanta-te e ergue-te altaneira. Orgulha-te dos feitos de teus filhos. Ponta Grossa, não permitas que a desunião de teus filhos enfraqueça a grandeza do teu porvir. No teu início, houve um momento de dúvida, de incertezas que podiam comprometer a tua unidade: "Em contenda e porfia, dividiram-se as opiniões sobre o local em que seria construída a nova igreja. Conta-se poeticamente que uma avezinha foi solta à pequena distância, vindo repousar nos braços da tosca cruz da antiga capelinha".

 Ponta Grossa, une todos teus filhos sob o manto da Senhora Sant'Ana. Que o Espírito Santo te vivifique e te conserve unida e coesa para a maior glória de Deus e a salvação de todos os teus filhos.

OITENTA ANOS DEPOIS, contata-se o crescimento da população no território da Diocese de Ponta Grossa com uma população de aproximadamente 697.069 habitantes, com 45 paróquias e 640 Comunidades Católicas, atingindo 17 Municipios: Carambeí, Castro, Fernandes Pinheiro, Guamiranga, Imbaú, Imbituva, Ipiranga, Irati, Ivaí, Ortigueira, Piraí do Sul, Ponta Grossa, Reserva, Teixeira Soares, Telêmaco Borba, Tibagie e Ventania. Com vários presbíteros de Congregações Religiosas, aproximadamente 100 presbíteros, sendo 45 do Clero Diocesano Secular. Várias congregações religiosas, casas de formação e seminários; com 45 diáconos permanentes e vários candidatos na Escola Diaconal Santo Estevão. Com várias pastorais, movimentos eclesiais e associações, que a seu modo próprio procuram evangelizar. Com vários leigos nas Comunidades Católicas que voluntariamente  se dedicam na evangelização. Com várias vocações religiosas, sacerdotais, diaconais,missionárias e leigas, as sementes do Evangelho são plantadas nos corações humanos em todos os recônditos da Diocese. Juntos assumimos o término das obras da Catedral Sant`Ana na Ação Evangelizadora Nossa Igreja Mãe, sonho dos primeiros bispos diocesanos de saudosa memória. Assumimos juntos as Santas Missões Populares e a Evangelização da Juventude, sem descuidar dos Conselhos de Pastoral, dos Pequenos Grupos e do Mutirão de Superação da Fome e da Miséria. Foi com alegria que como diocesanos celebramos na Catedral Sant`Ana os 80 anos da Criação da Diocese de Ponta Grossa (Pe. Ademir da Guia Santos).

 

* Celebração dos 80 anos da Diocese de Ponta Grossa 

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