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DOM ANTÔNIO MAZZAROTTO

Dom Antônio Mazzarotto, década de 1930 - Acervo: Casa da Memória Paraná.

Biografia

Nasceu em 1º de setembro de 1890, em Santa Felicidade, Curitiba. Freqüentou as primeiras letras na Escola local e foi aluno do Revmo. Pe. Francisco Brescianini, que o preparou para ingressar no Seminário. Matriculou-se no Seminário Episcopal de Curitiba, aos 9 de janeiro de 1905, fez aí os estudos eclesiásticos, sendo ordenado sacerdote por D. João Braga, em Santa Felicidade, aos 23 de novembro de 1914.

Após ter exercido o Magistério no Seminário, começou seu ministério sacerdotal, como coadjutor da Catedral. Revelou-se logo o maior orador sacro do Paraná pela profundeza de sua doutrina e suave eloqüência de sua palavra erudita e castiça. Em redor de seu púlpito, congregavam-se os homens de saber de Curitiba, como o povo simples, para ouvir-lhe a palavra sábia e piedosa, na missa das dez e meia, aos domingos. Durante 16 anos, explicou de modo admirável todo o Credo, os Sacramentos e os Mandamentos, sempre numa linguagem limada.

Lente Catedrático de Latim - como professor catedrático de Latim do Ginásio Paranaense, - salientou-se pela sua profundeza, tomando-se um dos latinistas mais categorizados do tempo, em Curitiba. Diretor da Congregação Mariana, em 1925 sucedeu ao Pe. José Falarz na direção da Congregação Mariana da Catedral, soube guiar aquela mocidade para o caminho da virtude. No Grêmio Literário São Luis, a ação do Padre Antônio marcou traços profundos na vida intelectual do Estado, tendo sido incentivador de inúmeros jovens, comentando os trabalhos literários a científicos aí apresentados. A ele muitos devem o gosto pela ciência, pela oratória e ensino superior.

A Revista "Cruzada" que, qual baluarte da fé, se difundiu no meio paranaense por mais de dez anos, teve em Dom Antônio um dos seus mais entusiastas fundadores e um dos colaboradores mais eficientes, através dos seus profundos artigos doutrinários e polêmicos. Muito ainda se podia beneficiar Curitiba com sua ação apostólica, quando a voz de Roma o chama para reger os destinos espirituais da novel Diocese de Ponta Grossa, criada em 1926. Escolhido a 16 de dezembro de 1929, fez-se sagrar em Roma pelo Cardeal Henrique Gasparri, a 23 de fevereiro de 1930. Tomou posse do Bispado aos 3 de maio do mesmo ano .

Ata de Tomada de Posse

Eu, abaixo Assinado, secretário "ad hoc" da tomada de posse do primeiro Bispo, da nova diocese de Ponta Grossa, declaro e dou fé ter sido testemunha, do que segue:

No dia três de maio, do ano do Senhor, de mil novecentos e trinta, às quinze horas, na Igreja Catedral de Sant' Ana, da Diocese de Ponta Grossa, na presença dos sacerdotes, da dita Igreja Catedral, a saber os Revmos. Senhores Padres: Agostinho Latemkamp, coadjutor substituto na ausência do vigário Martinho Weber, João Lux, Paulo Tomala, José Noglik, Frederico Renuciki, José Pliga e mais os Revmos. Senhores Padres: Frei Celso Drauly, Provincial dos Padres Franciscanos, Ludovico Brosmy, Provincial dos Padres Lazaristas Poloneses, João Lóroa, Vigário de Castro, Vicente Peronelle, Diretor da Escola Apostólica dos Padres Lazaristas em Fraby, Frei Pio Foecker, Vigário de União da Vitória, Bernardo Peirik, Vigário de Antonina na Arquidiocese de Curitiba, Valentim Gaertner, Vigário de Prudentópolis, Pedra Hayda, Coadjutor de Guarapuava, residente em Rio Azul, subiu ao púlpito o Revmo. Pe. Jerônimo Mazzarotto que aos mencionados padres e ao povo exibiu e leu as Cartas Apostólicas, do Santo Padre o Papa Pio XI, as quais foram dadas em Roma no dia dezesseis de dezembro do ano do Senhor de mil novecentos e vinte e nove e pelas quais foi canonicamente nomeado Bispo, da dita Igreja de Ponta Grossa o Revmo. Padre Antônio Mazzarotto.

A leitura da Bula foi seguida de solene Te Deum perante o Santíssimo Sacramento exposto com enorme assistência de fiéis que da estação ferroviária acompanharam à Catedral Sua Excia. Revma. o Senhor Bispo Dom Antônio Mazzarotto.  A multidão foi calculada em cinco mil pessoas, entre as quais se notaram o Sr. Dr. Elyseu Campos Mello, Prefeito Municipal do Município de Ponta Grossa, o Capitão José Schleder, representante do Dr. Presidente do Estado, o Sr. Albary Guimarães, Presidente da Câmara Municipal de Ponta Grossa e chefe da Comissão Central de recepção de Sua Excia.  As associações religiosas estavam todas incorporadas com os relativos estandartes. Os colégios católicos compareceram guiados pelos respectivos Mestres. Outras associações cívicas e beneficientes e Escolas do Governo estavam também representadas. À estação o Sr. Bispo foi saudado pelo Sr. Augusto Faria Rocha em nome do Município e do povo. A esta saudação respondeu da mesma tribuna o Sr. Bispo, que em seguida falou também na Catedral a todos os católicos presentes, saudando-os e contando com seu apoio no governo diocesano.

No dia seguinte, com prática de Sua Excia.  alusiva ao Evangelho que era do Bom Pastor, do segundo domingo depois da Páscoa, houve sole Missa Pontifical, a qual assistiram os mesmos sacerdotes da véspera e uma grande multidão de fiéis. E para constar, eu Padre Roberto Bonk, secretário “ad hoc”, lavrei e datei e assinarei a presente ata com os Padres da Catedral que comigo também assinarão.

Ponta Grossa, 4 de maio de 1930.

Pe. Roberto Bonk, secretário “ad hoc”
Pe. Agostinho Latemkamp
Pe. João Lux
Pe. Paulo Tomala
Pe. José Noglik
Pe. Frederico Renuciki           

Ação Pastoral

Em Ponta Grossa, tudo estava por fazer. Num território imenso que incluía também a zona paranaense de Guarapuava e Palmas, havia apenas doze paróquias. Não encontrou um único representante do Clero Secular. Sua Excia. convida congregações religiosas para paróquias e comunidades, abre o Seminário para a formação do Clero. Divide seu apostolado entre os trabalhos da Sede e as apostólicas e cansativas visitas pastorais, em que permanece a maior parte do ano. Fácil é de se imaginar a soma de sacrifícios que exigiam essas visitas a todas as sedes paroquiais e capelas desprovidas de estradas e feitas em condução primitiva.

Formou Sua Excia. grande patrimônio para a Diocese pela aquisição de terrenos à custa de sacrifícios, economias e ofertas de Crisma. Sua Excia. criou novas paróquias, incentivou as obras vicentinas, fundou o Seminário e o Colégio Josefino, adquiriu para a Sede das Associações e Ação Católica o Colégio Sant' Ana e comprou para a diocese o Ginásio Santa Cruz de Castro.

Traduzindo na sua vida e ação pastoral o lema de seu brasão de armas “Adveniat Regnum tuum”, D. Antônio esmerou-se antes de tudo em ser o modelo do rebanho a si confiado, para depois evangelizá-lo através de palavras e atos. Assim Dom Antônio foi antes de tudo um místico. A sua piedade eucarística a todos encantava e servia de exemplo. A preparação para a Santa Missa e a ação de graças após o sacrifício eucarístico marcavam a sua presença no seio da comunidade cujas celebrações presidia, O rosário de Nossa Senhora estava constantemente em suas mãos. A devoção a São José mereceu de sua parte um carinho especial; levado por esta devoção, deu o nome de São José ao Seminário Diocesano, denominou de Colégio Josefino o então Instituto Assistencial São José (hoje sub-sede do Colégio Sagrada Família) e incentivou vivamente a celebração do Tríduo a São José nas Paróquias da Diocese.

Dom Antônio Mazzarotto, já antes de sua ordenação episcopal, conhecia Ponta Grossa e a extensa diocese que o aguardava, onde se encontravam alguns sacerdotes religiosos, poucas congregações religiosas e nenhum sacerdote diocesano. Por ocasião de sua sagração episcopal em Roma aos 11 de fevereiro de 1930, pelo Cardeal Henrique Gasparri, tendo sido, em seguida recebido em audiência pelo Papa Pio XI, expôs a Sua Santidade as necessidades da novel Diocese, esperando, como dizia Dom Antônio, que o Santo Padre o

Socorresse destinando-lhe, talvez um outro sacerdote italiano que quisesse vir para o Brasil. Pio XI simplesmente respondeu: "Funde o seu Seminário Diocesano e terá sacerdotes". Mas antes de fundar o Seminário Diocesano, que mais tarde chamar-se-ia São José, muito teria que ser feito. Assim que assumiu a Diocese, Dom Antônio teve a felicidade de contar com a colaboração valiosa do Revmo. Pe. Roberto Bonk, SVD, sacerdote que foi durante mais de trinta anos companheiro fiel e incansável colaborador da ação pastoral de Dom Antônio Mazzarotto. O Revmo. Pe. Roberto Bonk começou a organizar a Cúria Diocesana e em tudo foi o braço direito de Dom Antônio. Muito do que possuímos na Cúria é obra, em grande parte, do zelo apostólico e tino administrativo do Revmo. Pe. Roberto. É de se destacar ainda a grande ação pastoral desenvolvida pelo Pe. Roberto junto à colônia polonesa em nossa cidade; haja visto a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, sita à praça Barão de Guaraúna - templo votivo de adoração perpétua do SSmo. Sacra- mento, cuja obra se deve, sem dúvida alguma, ao zelo apostólico do Revmo. Pe. Roberto Bonk.

Antes de encerrarmos este capitulo, queremos nos referir a um dos traços mais marcantes da ação pastoral de Dom Antônio: o ministério da Palavra de Deus, de que foi incansável ministro.

Ciente da responsabilidade que lhe incumbia de apascentar o rebanho a si confiado pela evangelização "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura", Dom Antônio esmerou-se em fazer chegar a todos, indistintamente, os ensinamentos do Evangelho: à maneira do Apóstolo, pregou oportuna e inoportunamente, repreendeu, ameaçou, exortou com toda paciência e empenho de instruir. Assim, por ocasião das visitas pastorais, destinava a maior parte do tempo para instruir os fiéis sobre as verdades fundamentais de Fé. Na Igreja Catedral celebrava regularmente a Missa dominical das sete horas, por ocasião da qual proferia eloqüentes homilias. Os seus sermões das Sextas Feiras Santas sobre a Paixão de Cristo marcaram época, distinguindo-se como peças notáveis na oratória sacra. Finalmente exerceu com amor e dedicação o ministério da palavra, através de suas famosas cartas pastorais.

Cartas Pastorais

Dom Antônio exerceu o ministério da Palavra de Deus com amor e dedicação, não apenas em sua pregação erudita e repleta de ensinamentos, como através de suas CARTAS PASTORAIS. Publicava anualmente, no seu  aniversário de sagração episcopal, uma Carta Pastoral que representava um Plano de Pastoral e onde deixava transbordar o seu zelo apostólico. São elas também um rico cabedal de doutrina e vemaculidade. Transcrevemos, de um modo muito sucinto e resumido, o conteúdo de sua primeira Carta Pastoral, “REINO DE CRISTO”, de 1930:

A referida Carta Pastoral tem o seu início com as seguintes palavras: “O universo e tudo o que nele contém é feitura de Deus, o Criador”. Refere-se a esse assunto e aconselha o cumprimento das obrigações em geral pelos católicos. Seus argumentos estão todos nos Santos Evangelhos. Condena a heresia, as falsas doutrinas e aconselha firmeza na fé católica, apostólica e romana. Faz ainda um apelo ao Governo do Estado e às autoridades em geral, solicitando cooperação e ajuda para o desempenho de sua missão episcopal. Finaliza recomendando a todo o Clero Diocesano maior trabalho e dedicação para a conquista de adeptos para a santa religião católica, e pede as orações por ele, para que possa desempenhar satisfatoriamente a missão de Pastor e Guarda do Povo Santo de Deus.

Segue o elenco de suas demais cartas pastorais: Doutrina Cristã (1931), Magia Espírita (1932), Arca da Salvação (1933), O Matrimônio Cristão (1934), Tríplice horrenda escravidão (1935),  A respiração da alma (1936), Os canais da Graça (1937), Vida essencialmente ativa (1938), Membros do Corpo Místico (1939), Operários da Vinha (1940), Males Gravíssimos (1941), O Vizinho, a Vitima, o Alimento (1942), Remédio eficaz (1943), Morrer para viver (1944), Manancial de graças (1945), O Arqueduto (1946), Tribunal de Misericórdia (1947), O supérfluo dos pobres (I948), Lugar de expiação (1949), A Geêna do Inferno (1950), Perseguições vantajosas (1951),  A nossa Pátria (1952), Admirabile Sertum (1953), Alma Emiliae Praeses (19540, Deo Gratias (1955), Nobilíssima missão, dever gravíssimo (1956), A nossa Pátria (1957), Defesa e conquista (1958), Vida da Alma (1959), A grande viagem (1960), Solene Assembléia (1961), Milícias Celestes (1962), Preparação e fruto (1963), Parecenças com o Divino Modelo (1964), Obras da Palavra e do Silêncio (1965).

As viagens pastorais

O primeiro cuidado de Dom Antônio Mazzarotto foi conhecer seu rebanho; conhecê-Io bem, por isso palmilhou a extensa região que abrangia em 1930: 56.550 Km2.

Visitou paróquia por paróquia, e em cada paróquia visitava todas as capelas e lugares de culto, sem exceção, procurando atingir todos os seus filhos espirituais a fim de conhecer de “visu” as necessidades da Diocese, fazer chegar sua palavra evangelizadora, sanar os erros, coibir os abusos, enfim, implantar o Reino de Cristo na Diocese que lhe foi confiada por Deus.

As visitas pastorais começaram do centro da Diocese para as periferias. Foi assim que chegou a visitar até Chapecó, em Santa Catarina, porque, quando a então paróquia de Palmas foi elevada a Prelazia em 1958, Dom Antônio a estava visitando pastoralmente (era a paróquia mais distante em 1930). Dom Antônio foi nomeado Administrador Apostólico desta Prelazia, da data de sua criação até 1936, quando tomou posse o 1º Bispo desta Diocese, D. Frei Carlos Eduardo Maria Sabóia Bandeira de Mello.

Quando Dom Antônio começou as visitas pastorais em Ponta Grossa, logo após a sua posse (1930), eram capelas filiais da Paróquia de Sant'Ana: Itaiacoca,  Ipiranga, Irati, Teixeira Soares, Uvaia, Entre Rios; alguns desses lugares mais tarde seriam elevados à categoria de paróquias.

As viagens pastorais eram feitas de carrocinha, a cavalo ou a pé. Aliás, Dom Antônio dizia que devia sua boa saúde às asperezas dos duros caminhos e aos exercícios físicos que o revigoravam sobremaneira. Num período de 4 a 5 anos visitava literalmente toda a Diocese. Às pessoas que lastimavam sua ausência da sede, respondia que suas ovelhas o esperavam, morando distante do conforto de uma cidade, disseminados pelas capelas das extensas paróquias que compreendiam um território, hoje composto por uma diocese (por exemplo, a diocese de Guarapuava). Somente na última viagem a Guarapuava, pelo ano de 1960, foi utilizado um Jeep, isto pela primeira vez.

A maior viagem pastoral, sem interrupção, teve a duração de sete semanas e meia (quase dois meses), tendo visitado até Campo Mourão que pertencia à Paróquia de Guarapuava. A viagem pastoral mais extensa, com interrupção, foi de seis meses, na extensa Paróquia de Guarapuava em 1933. Em geral Dom Antônio permanecia dois dias em cada capela. Chegava à tarde a fim de preparar o povo com a reza do terço, pregação e confissões. No dia seguinte pela manhã, era celebrada a Santa Missa e à tarde, administrava o Sacramento da Crisma. No outro dia pela manhã, viajava para outra capela.

A viagem mais distante da Sede foi a de Palmas, em cuja ocasião, em 1933, foi nomeado Administrador Apostólico da Prelazia visitou Chapecó em Santa Catarina, que era então pertencente à Paróquia de Palmas. Esteve em Barracão, visitando São Carlos e Porto Novo, ao longo do Rio Uruguai, o qual atravessou a cavalo. Em São Carlos e Porto Novo só encontrou colonizações alemãs, umas católicas e outras não, nitidamente separadas. Eram estas encarregadas de abrir as estradas que serviam à região.

Laranjeiras e Pitanga pertenciam, então, pelos idos de 1930, à Paróquia de Guarapuava. Passaram para a Prelazia de Foz do Iguaçu em 1935, num pedido à Nunciatura do Monsenhor Guilherme Miletzek, SVD., prelado de Foz do Iguaçu, preocupado em aumentar o território desta Prelazia, então em atraso econômico, ocasionado pela queda da erva-mate.

Foram administradas por Dom Antônio 251.362 Crismas, no período que vai de 1930 a 1964. O número dos que eram crismados nunca preocupou Dom Antônio. Somente almejava que aquele número se equiparasse ao número dos que participavam da Santa Missa pela recepção da Eucaristia. Teve também sempre em grande estima a missão dos Padrinhos no Sacramento da Crisma, exigindo que fossem  católicos praticantes.

Fazia-se acompanhar de dois ou mais sacerdotes nas visitas pastorais, sempre acompanhado pelo Padre Vigário da Paróquia, a fim de possibilitar um maior e melhor atendimento possível na administração dos Sacramentos.

Falecimento

Após uma vida de grande dedicaçao pelo Reino de Deus, faleceu no dia 15 de Julho de 1980. Foi sepultado na Reitoria - Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Ponta Grossa. Sucedeu-lhe na missão  episcopal Dom Geraldo M. Pellanda.     

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